A Alavanca de Couro
- sunairprojeto
- 2 de nov. de 2018
- 3 min de leitura
Atualizado: 14 de nov. de 2018
Brumado é um distrito que pertence ao município de Alto Paraguai. Chegando lá, indo em direção ao vão da serra que os altoparaguaienses conhecem como bocaina, passa um rio por nome Purga. Seguindo o curso desse rio, logo abaixo forma um poção aonde aconteceram muitos mistérios. Dizem que se as águas dele falassem elas contariam, mas como não falam, apenas escorrem como se fossem lágrimas tristes pelos escravos que nela se afogaram e douradas pelo ouro que lhe tiraram.
A água do poção vinha de uma cachoeira alta que havia no meio do rio e caía lá embaixo formando ondinhas de espuma. Os raios solares penetravam entre as copas das árvoes e refletiam nas gotas que espirravam, produzindo um espetacular arco-íris. As matas ciliares eram muito verdes, a água era limpa, mas ao mesmo tempo escura devido à profundidade, os peixes coloridos pulavam para cima, faziam acrobacias e depois mergulhavam novamente.
Naquele tempo, Portugal controlava a extração de ouro e diamante em vários lugares do Brasil e trazia escravos para trabalhar. Muitos deles vieram para as proximidades do Rio Purga, onde eram obrigados a extrair metais preciosos e diamantes tanto nas margens, quanto dentro da água. Os serviços eram feitos manualmente, com poucas ferramentas, entre elas a alavanca era muito utilizada para quebrar os cascalhos. Com a finalidade de agilizar o trabalho, os senhores que tomaram posse daquelas terras mandaram construir degraus de pedra para que pudessem descer dentro do poção.
A abundância de ouro fazia aumentar a ganância dos senhores. Eles orientavam seus capatazes a chicotear os escravos, fazendo-os quebrar cascalhos e também mergulhar no poção durante o dia todo.
Os donos dos escravos conseguiram retirar muitos minerais preciosos daquele rio. Anos após a escravidão ser abolida no Brasil, o local foi abandonado pelos portugueses. Com o tempo, os garimpeiros o redescobriram e começaram a procurar ouro e pedras preciosas. A fama logo se espalhou, aumentando o número de exploradores. Entre eles corria um boato de que havia uma alavanca de ouro dentro do poção, todos a procuravam ansiosamente, muitos até afirmavam que a viam, mas nunca conseguiam pegá-la.
Os velhinhos da cidade, esforçando-se para explicar esse fato, contam que certa feita, os escravos viram uma alavanca de ouro fincada dentro do poção. Os donos das terras ficaram sabendo e queriam a todo custo que ela fosse retirada, mas os negros, mesmo colocando toda a força que tinham, não conseguiam arrancá-la, ela se enfiava cada vez mais para o fundo até quase desaparecer, porém no outro dia estava visível novamente. Quando os escravos voltavam à superfície, sem a alavanca, eram espancados até à morte. Alguns resolviam ficar agarrados nela no fundo do poção até que seus pulmões, ouvidos e olhos explodissem com a força da água e eles acabavam morrendo. Quando os corpos boiavam, eram retirados pelos capatazes e enterrados ali mesmo em um local cercado de pedras, que depois ganhou o nome de cemitério dos escravos. Dessa forma, muitos morreram sem que nenhum deles conseguissem tirar da água a tão almejada ferramenta de ouro.
Assim como em outros garimpos de Alto Paraguai, a região onde fica o poção foi extremamente explorada e a paisagem natural foi modificada. Mesmo assim, a água da cachoeira apesar de ter diminuído, ainda não secou. Os degraus do poção e o cemitério de pedras permanecem intactos, dando a impressão de que a natureza quer proteger os restos mortais daqueles negros mortos e sepultados injustamente.
Hoje, idosos centenários que ainda moram na cidade de Alto Paraguai contam para seus netos que eles também garimparam naquele local e viram a alavanca de ouro. Eles falam que existe algo misterioso naquelas águas e quem quiser ver aquela alavanca encantada, basta sentar-se à beira do poção e olhar fixamente para o fundo. Ela está lá, dourada e reluzente, mas ninguém jamais conseguiu retirá-la daquele poço que fica no Rio Purga, no vão das serras do Brumado.






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