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O Passarinho Encantado

  • sunairprojeto
  • 2 de nov. de 2018
  • 4 min de leitura

Atualizado: 14 de nov. de 2018

No município de Alto Paraguai, há aproximadamente sessenta anos, lá pelas bandas da Raizama, moravam várias pessoas que viviam da agricultura, ali todos se ajudavam como se fossem uma única família. Durante a colheita eles trocavam alimentos como arroz, feijão e milho e todos cuidavam uns dos outros. Porém, um dos vizinhos não gostavam desse companheirismo, ele preferia ficar mais isolado com sua família, assim, não ajudava ninguém, nem aceitava ajuda, além disso, colocava a mulher e os filhos para trabalharem em serviços pesados, e batia neles por motivos banais.

Naquela época, a natureza naquele lugar ainda estava intocada, os rios eram todos preservados e quando as pessoas andavam pelas matas, escutavam a orquestra sinfônica dos pássaros. Nas noites enluaradas, as famílias se juntavam para conversar sob a luz do luar e todos ao redor de uma crepitante fogueira contemplavam as estrelas que cintilavam no céu. A fartura era indescritível, pois existia toda espécie de aves, peixes e caça.

Era comum caçar para a sobrevivência, porém, aquele homem, além de caçar para o sustento da família, também matava os animais apenas por mero prazer e para descarregar o ódio que trazia dentro de seu coração.

Certa vez, na época da quaresma, o homem disse que iria sair para caçar, a mulher pediu-lhe que não fosse, pois não havia necessidade e disse que ela e os filhos não iriam comer carne de caça nesse período, somente peixe. Mas ele insistiu dizendo:

-Eu vou caçar, não me importo com quaresma, para mim, é somente mais um dia qualquer.

O senhor pegou sua espingarda e entrou na mata que estava taciturna, calada e sombria. Não se via, nem se ouvia som de bicchos. Mas ele permanecia inflexível, insistindo em tirar a vida de qualquer um animal, e continuou embrenhando floresta adentro. Quando caiu em si, estava no meio de uma mata fechada, bem longe de sua moradia.

No retorno para sua casa veio xingando e reclamando:

-Tenho que matar algum bicho! Como vou chegar em casa sem nenhuma uma caça!

Quando ele ia passando por uma árvore grande e verdejante, avistou um magnífico passarinho todo colorido e pequenino. O sol já estava se pondo e com muita dificuldade ele conseguiu mirar e atirar, porém não acertou. Foi quando o pássaro emitiu uma melodiosa canção:

-Não me mate não, Mané, que eu sou passarinho do mato.

O homem estava tão cego em sua arrogância que nem se deu conta de que era um passarinho que lhe falava e respondeu:

-Que não mato o que, vou matar sim! Mirou e atirou dessa vez

certeiro.

Quando o minúsculo passarinho caiu, chegava a dar pena de tão perfeito que era. O senhor o levou para casa e enquanto o depenava, ele cantava com uma voz suave.

-Não me depene não, Mané , que eu sou passarinho do mato.

-Depeno sim!- disse o homem.

Em seguida, o senhor começou a cortar o passarinho e ele cantou:

-Não me corte não, mané, que eu sou passarinho do mato.

Depois de temperado e frito o homem achou que a carne do passarinho rendera pouquíssimo. Então ele decidiu fazer uma farofa.

A esposa em estado de melancolia, juntamente com seus filhos, choraram de tristeza e não comeram nem mesmo um pouco daquela refeição, fruto da maldade de um pai de família contra uma ave que vivia somente para cantar e alegrar a natureza.

O homem, sem nenhum remorso ou arrependimento, sentou-se na rede e começou a comer. E novamente a ave cantou.

-Não me coma não, mané, que eu sou passarinho do mato.

-Que não como o que, vou comer sim! E comeu toda a farofa.

O homem, com raiva da mulher e dos filhos, resolveu dormi ali mesmo, na rede que ficava no quintal.

Já altas horas da madrugada, a mulher ouvia um gemido vindo de fora da casa:

-Ai, ai, ai.

Resolveu levantar-se e ver o que estava acontecendo. Ao chegar lá fora, seu esposo estava a se contorcer de tanta dor de barriga .

A esposa logo imaginou que a farofa lhe fizera mal. Vendo-o naquele sofrimento, rapidamente preparou-lhe um remédio caseiro e foi deitar. Antes de começar a dormir, escutou novamente os gritos de dor. Ela voltou lá na rede e viu e viu que a barriga dele estava inchada, o dia já estava a clarear e o homem não parava de gritar.

Quando amanheceu, a mãe mandou um dos filhos ir buscar uma senhora que morava muito longe e sabia fazer todo tipo de garrafada com raízes, folhas e cascas, para curar várias doenças. Ela chegou ao entardecer e ao ficar sabendo o que tinha acontecido, fez um preparado bem forte e lhe deu para beber. Quanto mais ele bebia, mais a barriga inchava e a dor aumentava.

Então resolveram chamar todos os curandeiros que havia na região.

Enquanto ele agonizava de dor, a pequena comunidade ficava angustiada, sem nada poder fazer.

Os curandeiros fizeram tudo que podiam, mas não houve nenhum resultado, não tinham mais esperança.

Todos ao redor da rede sentaram-se esperando o triste fim. Quando chegou a hora, o homem, já em seus últimos momentos, gemia de dor e não aguentava gritar. A barriga, inchando cada vez mais, parecia um papel fino e as veias estavam tão saltadas como se fossem arrebentar.

Já em seus últimos momentos, o homem olhou para a árvore aonde a rede estava armada e viu o passarinho que pela ultima vez cantou:

-Você vai morrer, Mané, porque matou o passarinho do mato.

Quando o passarinho terminou de cantar, a barriga abriu-se e saiu somente água. O homem foi fechando os olhos e lentamente faleceu.

Enquanto isso, a família enlutada não sabia o que fazer de tanta tristeza e angústia. Com os olhos lagrimejados, olhavam o rosto de seu pai pela última vez e com pesar no coração, compreendiam que ele estava colhendo as maldades que plantou.


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