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A Carroça da Meia Noite

  • sunairprojeto
  • 2 de nov. de 2018
  • 5 min de leitura

Atualizado: 14 de nov. de 2018

Por volta do ano 1962, na cidade de Alto Paraguai, aconteceu um crime bárbaro com um garimpeiro que veio de Minas Gerais para trabalhar nos garimpos que havia nessa cidade. Esse homem pegava muito diamante, vendia e sempre gastava com bebedeiras. Certa vez , ele pegou uma pedra enorme, um diamante lindo e muito valioso. Ele contou para algumas pessoas e rapidamente o boato se esparramou pela cidadezinha.

As pessoas contam que, um dia, ele foi à casa de um senhor que também morava na cidade. Lá ele bebeu até cair, então o dono da casa vendo que ele estava muito bêbado, aproveitou da situação e pegou o diamante em seu bolso. Em seguida, com medo de que o garimpeiro contasse para alguém que ele tinha pegado aquela pedra de grande valor, resolveu matá-lo. Enquanto o garimpeiro estava caído no chão muito bêbado, o homem chamou mais três pessoas para ajudá-lo a cometer o crime.

Naquela época não existia luz elétrica, as ruas eram de terra e muito escuras não havia carros, somente cavalos e muitas carroças.

A noite do crime estava sem lua e fazia muito frio, por isso as pessoas estavam todas recolhidas dentro de suas casas, facilitando o assassinato sem chamar atenção. Então o senhor, juntamente com os três homens que ele havia chamado, desferiram vários golpes de porretes no garimpeiro que morreu bêbado e sem chance de se defender .

Depois eles chamaram um carroceiro, esperaram até meia noite para terem certeza de que todas as pessoas estivessem dormindo, e juntos saíram, levando o corpo em cima da carroça.

Os moradores de Alto Paraguai dizem que eles saíram da casa onde o rapaz foi morto, no centro da cidade e foram para um bairro bem afastado, chamado Santa Rita. Enquanto faziam o trajeto, o sangue vazava do corpo do garimpeiro, passava pelas gretas das tábuas da carroça e pingava nas estradas, o vento soprava balançando as árvores e por vezes o cavalo pisava em falso nos buracos do estradão de chão, fazendo o cadáver sacolejar.

Chegando naquele distante bairro, enrolaram o corpo, amarraram-lhe uma pedra no pescoço e o jogaram dentro de um poço que ali havia. Depois cobriram com terra, plantaram algumas gramas em cima e voltaram para suas casas.

A água desse poço era muito utilizada pela comunidade para beber, fazer os serviços de casa e lavar o cascalho do garimpo. No outro dia cedo, algumas pessoas foram buscar água e quando viram que o antigo poço estava arroiado, ficaram muito surpresas e começaram a perguntar a vizinhança se sabiam o que tinha acontecido. O assunto se espalhou e depois de quatro dias decidiram desentupi-lo.

Vários garimpeiros da comunidade já estavam com as ferramentas nas mãos quando o criminoso, cismado que as pessoas pudessem descobrir o crime, apareceu no local e disse que uma vaca caíra lá dentro e morrera, por isso achou melhor entupir o poço, mas que ele abriria outro. Porém, os garimpeiros disseram que aquela água era muito boa e preferiam limpá-la para continuar utilizando, do que abrir outro poço. Por várias vezes, o homem insistiu, por isso o grupo de senhores e jovens começaram a suspeitar daquela insistência e achando tudo aquilo muito estranho, começaram o desentupimento.

Quando tiraram a terrra, viram, com grande espanto, dois pés humanos, seguidamente um corpo de cabeça para baixo com uma pedra amarrada no pescoço. Apavorados, começaram a falar todos ao mesmo tempo e a exclamar com gritos de horror e revolta. Com muito cuidado, tiraram o corpo que já estava em putrefação, mas mesmo assim foi possível reconhecer que era do coitado do garimpeiro que tinha bamburrado pegando aquele precioso diamante. Colocaram-no em cima de uma mesa, depois o enrolaram em um pano e após alguns minutos o conduziram, em uma rede, para o cemitério e o sepultaram.

Como todos já estavam desconfiados, a suspeita se confirmou que a insistência do homem em não desentupir o poço, era porque ele havia matado o garimpeiro e jogado lá dentro para ficar com o diamante.

Apesar da grande revolta da população, a justiça não foi feita e nenhum dos cinco homens que participaram do crime foram punidos. Dizem que foi porque aquele senhor que idealizou o crime era muito rico e tinha uma família notável na cidade.

As pessoas mais antigas contam que o sangue do garimpeiro ficou por muito tempo nas tábuas da carroça e mesmo que a lavassem com bastante água, escova e sabão, quando o sereno da noite caía sobre a madeira, ele minava novamente.

Com o passar do tempo, os moradores começaram a ouvir barulhos como se fossem de várias carroças vazias, passando nas ruas à meia noite e indo em direção ao cemitério, outros chegaram a vê-la. O som parecia ser de muitas carroças, mas quem já viu diz que era apenas uma carregando o espírito do garimpeiro que clamava por justiça.

Os moradores contam que o espírito do garimpeiro continuou a passar todas as noites em cima da carroça pedindo que a justiça fosse feita. Enquanto o assassino com seus cúmplices não pagassem pelo que fizeram, a carroça continuaria a passar pelas ruas da cidade assombrando os moradores. Muitos que a viram descrevem o cavalo que a puxava, ele não tinha cabeça, uma corda mexia violentamente fazendo o o animal relinchar e correr, mas não conseguiam ver ninguém guiando. Outros dizem que o barulho é aterrorizante e se assemelha ao som de várias carroças passando sobre o cascalho.

Os anos foram passando e os assassinos, misteriosamente, foram desaparecendo da cidade, depois vinha a notícia que tinham morrido. Desaparecia um, chegava a notícia da morte, sempre sem muita explicação. Enquanto isso, a carroça da meia noite continuava andando pelas ruas de Alto Paraguai. Com o tempo, desaparecia outro, em seguida todos ficavam sabendo que estava morto. Assim foi até que morreram os três que participaram do assassinato dando porretadas no garimpeiro. A carroça, persistente, seguia assombrando crianças, jovens, velhos e adultos que perdiam o sono escutando o barulho de dentro de suas casas, ou que cruzavam com ela pelo caminho.

Já havia passado muitos anos da noite do crime. Em um dia agitado, os moradores estavam na feira comentando sobre a misteriosa carroça que tinha aparecido na noite anterior, quando alguns homens chegaram contando que o carroceiro responsável por levar o corpo do garimpeiro, apareceu morto.

A fama da cidadezinha chegou em cidades, estados e países. O ouro e os diamantes em abundância fizeram a cidade ficar conhecida e atrativa. Os compradores de diamante chegavam de avião e eram recebidos com honra no campo de aviação. Surgiram muitas lojas de tecidos e grandes armazéns. As principais ruas foram calçadas com paralelepípedo. Chegou também a energia elétrica gerada em uma cachoeira que existia na própria cidade. As praças e feiras eram movimentadas, nos finais de semana os jovens ficavam atentos ao som do auto falante que anunciava o filme a ser exibido no cinema próximo ao movimentado Bar do Chau. A prefeitura tinha um carro chamado arrural para resolver os problemas do município e muitos carros já transitavam pelas ruas... e a carroça da meia noite? Continuava aparecendo e assustando os moradores.

As pedras preciosas eram extraídas desenfreadamente até que começaram a se exaurir. A cidade perdeu a fama e começou a empobrecer. Ao longo dos anos, muitas mudanças ocorreram, somente a carroça da meia noite permanecia incansável andando pelas ruas com destino ao cemitério. O idealizador do assassinato, o único que estava vivo, ainda morava no mesmo lugar onde acontecera o crime.

Em um final de ano, já próximo ao natal, a cidade foi abalada com a informação sobre a morte daquele senhor. Depois daquele dia, nunca mais ouviram, nem viram a carroça da meia noite.


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