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A Maldição

  • sunairprojeto
  • 2 de nov. de 2018
  • 5 min de leitura

Atualizado: 14 de nov. de 2018

Na cidade de Alto Paraguai, há alguns anos, aconteceu uma história muito comovente com uma jovem mulher que morava com o pai, no bairro chamado Campo de Aviação.

O nome do bairro é devido aos aviões que traziam os compradores de diamante. Naquele tempo não havia estradas e as pessoas levavam mais de trinta dias para chegar em Cuiabá indo a cavalo ou às vezes chegavam em três dias quando iam em uma tombeira. Os capangueiros vinham de toda a parte do Brasil para negociar as pedras preciosas que eram abundantes, por isso era comum o tráfego aéreo, no imenso e escuro céu. Quando os aviões pousavam à noite, tinha-se a impressão de que um enxame de vaga-lumes clareava a escuridão do campo, mas eram as luzinhas das aeronaves trazendo os ávidos e ricos senhores.

Os garimpeiros da cidade trabalhavam intensamente e havia tanto diamante que eles não pensavam que um dia essa riqueza poderia se exaurir. O mais importante para a maioria deles era bailar, beber, namorar e divertir. Ao som do forró ou do sertanejo tocado pelos animados sanfoneiros, homens e mulheres se alegravam e gastavam em um final de semana, todo o suor do trabalho de dias.

Entre as mulheres que frequentavam os bailes havia essa do Campo de aviação. Ela tinha olhos escuros, bem marcantes, o cabelo curtinho e crespo, era alta e esguia. A mãe dela já havia falecido, por isso, morava somente com o pai. Como ainda não existiam muros para garantir a privacidade e segurança das casas, tudo o que acontecia, a vizinhança via ou ouvia. As casinhas eram de pau-a-pique, com pequenas e quadradas janelas de madeira, algumas cobertas de telhinha de barro, outras de palha. Os quintais bem varridos com vassoura do mato e cheio de árvores frutíferas como laranjeiras, mangueiras, abacateiros, limoeiros e tantas outras davam um ar de muita paz.

A jovem senhora gostava de dançar e demonstrava uma aparente alegria. Porém, os vizinhos começaram a desconfiar de que algo estranho acontecia com ela. Por vezes a moça ficava acamada com enjoos e a barriga crescia, estava grávida. Nesse período ela aparentava muita tristeza. Passados os nove meses, o corpo voltava ao normal, mas ninguém ficava sabendo sobre o nascimento dos bebês.

Os mais curiosos começaram a observar a moça, com mais cuidado, na tentativa de descobrir o que acontecia aos recém-nascidos que simplesmente desapareciam e ela voltava a frequentar normalmente os bailes.

A inquietação dos vizinhos foi aumentando fazendo-os vigiar a casa mais de perto. Uma certa vez, a moça engravidou novamente e quando se aproximava os dias da criança nascer, ela se entristeceu muito. Em uma madrugada ouviram a moça discutindo com o pai. Em seguida, escutaram um choro desesperador de criança recém-nascida. Um deles, mais corajoso, se escondeu atrás de uma árvore de onde conseguia ver o fundo da casa, ele ficou ali por um tempo e depois se uniu aos demais que também já estavam acordados. O homem, pálido de susto, começou a contar o que tinha visto. Ele disse que o bebezinho havia nascido e a mulher o colocou dentro do pilão de socar arroz, depois socou com força até conseguir quebrar suas perninhas, braços e cabeça. O nenê começava a chorar alto e para os vizinhos não ouvirem, ela tampava-lhe a boquinha com um pano. A mulher continuava socando até a criança morrer e despedaçar-se. Seguidamente, ela jogava os pedaços para os porcos comerem, tudo isso sob o olhar autoritário do pai.

Depois desse acontecimento, os moradores mais próximos resolveram denunciar para as autoridades que discretamente começaram a fiscalizar cada movimento que acontecia na casa. Assim o mistério foi descoberto. O pai engravidava a própria filha e depois mandava que ela matasse os bebês. A jovem senhora, embora triste, concordava, pois não queria filhos dele, resultando no assassinato de vários bebezinhos indefesos. O delegado de polícia levou o caso para o juiz e ficou decidido que se matassem mais uma criança, tanto o pai quanto a filha seriam presos. Eles resolveram a parte dos assassinatos, mas como ainda não havia lei que defendesse as mulheres da violência e do estupro, a moça, tristemente, continuou a ser violentada pelo pai e a sofrer em silêncio.

Além do sumiço dos bebês que fora descoberto, outro fato misterioso acontecia naquela casinha. Muitos animais com filhotes saíam de dentro da casa. Galinha com pintinhos, porca espinho com os porquinhos, gata com os gatinhos e outros bichos sempre rodeavam a casa fazendo muito barulho como se estivessem com fome.

Intrigados, os vizinhos continuaram vigiando a moça. O cochicho era constante na comunidade. Os filhos pequenos foram aconselhados a não chegar perto da mulher senão ela poderia pegá-los para socar no pilão e por causa disso a moça foi apelidada de Te pega. Mas quando ela resolvia ir a algum baile, os homens a chamavam para dançar na expectativa de descobrir algo mais.

Em certa noite enluarada estava tendo um baile em uma das casas do bairro. A lua redonda brilhava cheia no céu. As estrelas reluziam e de vez em quando se misturavam com o piscar das luzinhas de algum avião que cruzava o espaço. O baile transcorria animado enquanto o sanfoneiro dedilhava seus hábeis dedos no teclado da sanfona. A moça que socava as crianças no pilão estava lá dançando com todos que a convidavam. Quando o horário já se aproximava da meia noite, ela começou a ficar inquieta e queria parar de dançar. Assim que a música terminou, a jovem foi saindo e quando ganhou a rua, correu muito para chegar em casa.

O homem que dançou essa última música com a jovem mulher era um dos vizinhos que estava a espreitá-la. Ele a viu saindo e correndo quando chegou na rua. Então resolveu segui-la. Quando a moça entrou dentro de casa, o senhor teve a ideia de olhar pelas frestas da janela para descobrir o motivo de tanta pressa. Um grande e antigo relógio na parede do quarto marcava meia noite. A mulher com aquele corpo esguio se estirou no chão e inexplicavelmente foi encolhendo-se até que se transformou em uma galinha, em seguida vários pintinhos apareceram do nada. Os filhotes piavam muito e a mãe os protegia embaixo das asas.

O segredo foi descoberto. Esse era o motivo de tantos animais com filhotes aparecerem no quintal. O senhor não conseguiu voltar para o baile. Foi para sua casa totalmente desnorteado, a saliva de sua boca secou-se, as pernas tremiam e o coração batia em ritmo acelerado.

Ele achou que deveria compartilhar a descoberta com alguns de seus amigos. Um deles, mais velho e sábio, explicou que quando a filha engravida do próprio pai recebe uma maldição de virar bicho, à meia noite, nas sextas-feiras de lua cheia e se matasse o bebê, se transformaria em um animal fêmea com seus filhotinhos. O boato acabou esparramando-se pela cidade.

Desse dia em diante, a comunidade daquele bairro já ficava atenta e, sabendo da infeliz sorte daquela jovem senhora, aguardava os animais que estranhamente surgiam no quintal. Quando se transformava em bicho como porca espinho, adentrava a mata com os porquinhos correndo atrás e assustando os caçadores. Na madrugada ela retornava para casa e amanhecia toda machucada. E assim ela se transmutava noite após noite das sextas-feiras de lua cheia, em galinha, coelha, porca espinho, tatu, gata e há quem diga que já vira a moça se transformar até em égua.

Depois que as autoridades visitaram a casa e a proibiu de matar as crianças, ela ainda teve duas lindas meninas com o pai, mas por medo de ser presa resolveu criá-las.

Com o tempo, o pai morreu e a moça se casou. No dia do casamento o esposo também recebeu a maldição. A partir de então, marido e mulher se transformavam em um casal de bichos com seus filhotes e saíam pelas ruas ou pelas matas assombrando as pessoas. Dizem que depois de transformado, o animal macho batia muito na fêmea e judiava dela.

As duas meninas cresceram e como a mãe já estava velha e debilitada, resolveram levá-la para outra cidade abandonando o padrasto. Dizem que depois que elas foram embora nunca mais se ouviu falar de bichos com filhotes aparecendo nas noites de lua cheia, na cidade de Alto Paraguai.


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