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A Maleta

  • sunairprojeto
  • 2 de nov. de 2018
  • 4 min de leitura

Atualizado: 14 de nov. de 2018

Há muito tempo, quando Alto Paraguai ainda era repleto de matagais e quase não havia moradias, existia uma senhora que morava em uma humilde casa com paredes de barro e coberta de palhas, em um bairro chamado Campo de Aviação. Ela ficava dia e noite na janela cuidando da vida dos vizinhos, por isso ganhou fama de fofoqueira.

Quando essa mulher passava palas ruas, as pessoas se escondiam, pois sabiam que ela poderia inventar alguma fofoca. Se acontecesse alguma briga ela ja sabia o motivo, se uma moça estava namorando, ela dizia que o namorado não prestava, nos bailes ela vigiava quem estava dançando, tentando flagrar olhares entre homens casados e meninas solteiras. Ela também gostava de falar o tanto que cada pessoa comia nas festas. Como as poucas casas que existiam eram muito próximas umas das outras, a senhora faladeira sabia da vida de todos.

A vizinhança a tolerava porque não tinha família na cidade e como morava ali, todos tinham que suportá-la. As pessoas mais antigas do bairro se preocupavam com o fato daquela mulher morar sozinha e viver

falando mal dos outros. Eles a alertavam que deveria parar com aquela desagradável atitude, pois o coração das pessoas é terra que ninguém conhece e alguém poderia acabar fazendo maldade com ela.

Naquele tempo as ruas eram muito escuras e não existia iluminação como hoje, por isso era mais fácil acontecer algo ruim sem que ninguém percebesse. O que iluminava as noites eram as estrelas e a lua. No Campo de Aviação onde morava essa conhecida fofoqueira, os aviões se juntavam aos astros celestes e ajudavam a iluminar o bairro com suas luzes que piscavam na imensidão do céu. No inicio da fundação da cidade, ainda não havia estradas e voar era o meio que os compradores de pedras preciosas, vindos de outros estados, encontraram de chegar até Alto Paraguai em busca dos diamantes. Em meio a toda essa escuridão, a mulher ficava até tarde na janela, vendo o que acontecia com os moradores.

Para andar dentro da cidade, trazer mercadorias do sítio, ir até vilas mais próximas e a outros lugares, a população utilizava cavalos e carroças, ninguém tinha carro naquele lugar. Porém, numa certa noite, quando a senhora faladeira estava em sua janela, apareceu uma carro preto, luxuoso, muito bonito e misterioso. O motorista do carro também era encantador e pelos seus trages parecia um homem rico, poderoso e discreto. Ao vê-lo naquele automóvel parado em frente a sua janela, a mulher ja foi se arrumando, totalmente encantada pela beleza daquele senhor desconhecido. Prontamente, ela o convidou para entrar, mas ele não aceitou e saindo do carro com uma maleta, disse:

_Por favor, guarde esta maleta para mim, daqui a trinta dias voltarei para buscá-la, você não poderá abri-la em hipótese alguma.

Os dias se passaram e a curiosidade da mulher para saber o que tinha dentro da maleta, só aumentava. Chegando perto de completar os trinta dias, ela não se controlou mais e abriu a maleta, dentro só havia ossos.

Rapidamente, a senhora fechou a maleta e guardou-a do mesmo jeito que estava.

Assim que completou os trinta dias, o misterioso homem voltou. Desde cedo a senhora estava na janela, vestida com sua melhor roupa, cabelos bem arrumados e toda perfumada a espera daquele bonito e poderoso homem. Anoiteceu e naquele mesmo horário em que tinha vindo da outra vez, ele chegou.

A mulher, querendo ser prestativa disse:

_Oi, quer entrar? Vou abrir a porta para o senhor.

Surpreendemente, o homem apareceu atrás dela, dentro da casa, e a mulher sem demonstrar medo perguntou:

_Como o senhor entrou? A porta estava fechada!

Ele, muito sério, olhou para ela e falou:

_Pegue a maleta!

Ela, ainda sem medo e sempre esbanjando charme, puxou a maleta que estava debaixo da cama. Então, o homem disse com voz grave:

_Pegue uma folha de papel e uma caneta e comece a escrever.

O homem, cheio de mistérios, começou a ditar tudo o que aconteceu desde quando ele deixou a maleta, enquanto a mulher, neste momento já sentindo muito medo, começou a escrever uma carta direcionada aos moradores do bairro: “Olha o que a curiosidade fez comigo”...

Passaram-se dias e os vizinhos perceberam que ela não aparecia mais na janela. Foi quando um deles, ao passar em frente à casa, sentiu um mal cheiro como se fosse de carniça. Desconfiado com o sumiço da mulher, chamou alguns conhecidos que moravam naquela rua e entraram dentro da casa.

No quarto foi deixado um montinho de ossos e em cima da cama havia uma carta assinada pela própria mulher, relatando que ela fora assassinada devido à curiosidade. Aqueles ossos que estavam amontoados ali na casa eram de outra pessoa curiosa, que em outra cidade também abrira a maleta. No lugar deles foram colocados os ossos da fofoqueira do bairro Campo de Aviação para trocar pelos do próximo curioso. Quando terminaram de ler a carta, muito apavorados, decidiram contar para a vizinhança o motivo pelo qual aquela senhora não aparecia mais na janela.

Até hoje as pessoas de Alto Paraguai que passam por aquele bairro, lembram da história da maleta cheia de ossos e do triste fim daquela senhora que gostava de cuidar da vida alheia.


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