A Mulher das 40 facadas
- sunairprojeto
- 2 de nov. de 2018
- 4 min de leitura
Atualizado: 14 de nov. de 2018
Há muitos e muitos anos, na cidade de Alto Paraguai, em um lugar chamado Melgueira, alguns garimpeiros encontraram jazidas de diamante e ouro. Com o passar do tempo, as pessoas ficaram sabendo e foram para lá em busca de riquezas. Todos que chegavam iam construindo suas casas feitas de pau-a-pique, coberta de palhas e as paredes feitas de argila. As famílias eram unidas e ajudavam umas as outras, somente um casal mais jovem não conversava com ninguém. O moço era calado e quando ia trabalhar no garimpo, não muito longe da casa, deixava a esposa e o filho ainda bebê, trancados o dia todo. Dizem que essa mulher era muito bonita, por isso seu marido sentia ciúme e a proibia de se comunicar com os outros garimpeiros.
Um certo dia, aquele homem resolveu contar para um dos moradores que sua esposa havia fugido de casa levando seu filho. Ele continuou trabalhando no garimpo sempre quieto e solitário. O tempo foi passando até que os garimpeiros perceberam sua falta no trabalho. O moço sumiu e ninguém sabia o que havia acontecido com ele. Depois de alguns dias, encontraram um corpo já em decomposição, era o homem que havia desaparecido, ele estava caído dentro de um catreado muito fundo onde trabalhava. Seu corpo foi coberto com terra e sepultado ali mesmo.
Os garimpeiros continuaram trabalhando e cada vez que abriam uma catra, encontravam mais ouro e diamante. A fama do garimpo trazia cada vez mais pessoas para aquela região, porém sempre reclamavam que naquele local aconteciam coisas estranhas como panelas caindo, redes balançando, gritos e choros. Ninguém tinha paz. A ação sobrenatural era tanta que as famílias decidiram ir embora daquele lugar. No entanto, um senhor, que se dizia muito corajoso, resolveu ficar para descobrir o motivo daqueles fatos bizarros e conseguir extrair as riquezas que ali havia.
Todos foram embora, ficando apenas ele. Na primeira noite que passaria sozinho, entrou em seu barraco e acomodou-se em sua rede.
Naquela época ainda não existia luz elétrica e as pessoas usavam lamparina com querosene. De repente começou uma ventania tão forte, quase derrubando o senhor no chão. Lá fora o vento uivava balançando os galhos das árvores que se quebravam em um estalo seco aterrorizante. A noite estava muito escura e fria.
Assim acontecia em todas as noites. O homem foi ficando doente e sem forças para sair daquele local, porque já estava muito debilitado.
Em uma noite, quando ele já estava deitado em sua rede, começou a acontecer tudo de novo, desta vez mais forte e aterrorizante. A rede se balançou até que ele caísse, a voz de uma criança chorando tomava conta do barrraco, o vento entrou assobiando e fazendo a lamparina se apagar. As vasilhas das prateleiras se movimentavam trocando de lugar. Sem conseguir voltar para a rede, ele começou a gritar:
̶ O que está acontecendo neste local? Misericórdia!
Ele ficou por um tempo, imerso na escuridão, com os olhos fechados. Quando decidiu abri-los, viu bem na sua frente, uma mulher muito bonita com um vestido todo branco. Ela flutuava na porta e em suas vestes havia muitos furos de onde o sangue jorrava. Então o homem começou a perguntar:
̶ Por que você está fazendo isso? O que eu posso fazer pra te ajudar?
A mulher começou a contar uma história muito triste. Ela disse que havia morado naquele mesmo local, junto com seu filho ainda de colo e seu marido. Ele era muito ciumento, por isso a deixava trancada na casa com o bebê e ia para o garimpo. Quando chegava a maltratava muito. Ela continuou contando que um dia ficou trancada com o filho, sem água para beber. A criança começou a chorar de sede, então ela conseguiu quebrar a tranca e sair para pegar água, num córrego que tinha ali perto. Quando já estava voltando, seu esposo viu e começou a brigar, empurrando-a para dentro da casa. Lá dentro, ele pegou uma corda e enforcou o próprio filho, enterrando-o perto da porta, depois pegou uma faca e com um ódio terrível, começou a esfaqueá-la até completar 40 facadas. Quando teve certeza de que ela estava morta, enterrou-a no mesmo lugar, perto do filho.
O senhor, muito perplexo, disse que tinha ouvido falar sobre eles e que o marido dela havia sido encontrado morto dentro de uma catriado.
Então a mulher contou que, desde a sua morte, começou a perturbar seu marido, jogando pedras, não o deixando dormir, nem comer. Ela disse que o assustou e o amedrontou até que ele pulou dentro do catriado, tirando a própria vida.
Com voz baixa, rouca e trêmula, a mulher dizia que seu espirito estava aprisionado naquela casa. Ela pediu para aquele senhor comprar 40 velas brancas, acendê-las dentro da casa no local onde fora enterrada e depois jogar o que sobrou das velas derretidas no rio. Somente, assim seu espirito ficaria livre e não voltaria a perturbar as pessoas naquele lugar. Ela disse também que depois de fazer tudo, poderia pegar os diamantes que procurava e nunca mais deveria voltar ali. Em seguida, desapareceu misteriosamente.
Naquela noite não houve ventanias, nem outras coisas estranhas. Mas o senhor não conseguiu parar de pensar em tudo o que tinha acontecido e passou a noite em claro, sem conseguir dormir.
Quando amanheceu estava muito fraco, mas se esforçou e conseguiu ir a um mercadinho que havia nas redondezas para comprar as velas brancas. Chegando em casa, esperou anoitecer e acendeu as quarentas velas que queimaram durante toda a noite. Ao raiar do dia, jogou as sobras derretidas no rio. Depois de cumprir as ordens da mulher de branco, conseguiu dormir em paz.
Após um sono tranquilo, o homem acordou e lembrou-se das palavras da mulher que lhe disse para pegar os diamantes que procurava, depois de ter cumprido seus pedidos. Ele foi a um lugar onde todos tentavam pegar pedras preciosas, mas nunca conseguiram. Assim que começou a cavar, os diamantes surgiram brilhando no meio do cascalho. Aquele senhor achou uma grande mancha diamatífera, bamburrou e ficou muito rico. Depois foi embora daquele lugar e nunca mais voltou.






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