A Mulher que Virava Porca
- sunairprojeto
- 2 de nov. de 2018
- 4 min de leitura
Atualizado: 14 de nov. de 2018
Em Alto Paraguai existe um local conhecido como Cabaré ou Canoão, aonde moram antigas famílias que nunca mudaram e relatam às vezes com nostalgia ou com sofrimento, um passado da época gloriosa daquela pequena cidade. Ali há uma rua principal, dessa rua originam outras ruazinhas sem saída, formando três becos. A cidadezinha tornou-se conhecida por suas riquezas minerais. E quando estava em seu apogeu devido à vasta extração de ouro e pedras preciosas, formou-se naquela localidade um ponto de encontro entre mulheres e homens da cidade. Os moradores contam que elas eram bonitas, mas entre todas havia uma que se destacava por ser muito bela e graciosa. Com essa linda jovem aconteceu um fato muito estranho e dramático.
As mulheres, algumas trazidas de outros estados, outras da própria cidade, eram muito desejadas. Os compradores de diamante, conhecidos como capangueiros, ficavam à disposição até altas horas da madrugada, comprando as pedras preciosas das mãos dos garimpeiros que depois de trabalhar de sol a sol no garimpo, iam gastar tudo o que conseguiram com os prazeres da noite. Naquela rua o giro de dinheiro era grande. Havia muitos bares, dois hotéis, restaurantes, casa de quitandas e cafés, além disso, os vendedores ambulantes vendiam espetinhos e lanches em frente às casas. Porém, os homens gastavam mais era nos becos com as encantadoras mulheres. Às vezes, quando a quantia que tinham levado acabava, eles iam na escuridão para o local de trabalho, clareavam o cascalho com lanterna, encontravam alguns diamantes, voltavam para o movimentado Cabaré, vendia-os e festavam até o dia amanhecer.
As luzes amareladas, com lâmpadas ovais presas aos postes de madeira, iluminavam bem pouco o ponto mais movimentado da cidade, tornando-o sombrio. A rua principal, calçada com paralelepípedo conduzia os amantes às casas de mulheres nos becos de chão batido. Os donos dos bares tocavam as músicas em tom cada vez mais alto como se estivessem competindo. Os poucos carros que já existiam disputavam o espaço com carroças, cavalos e biciletas em um movimento frenético. Um grande número de pessoas vinha de toda parte para buscar melhoria de vida naquela cidade que já recebera o carinhoso apelido de Capital do diamante. Em meio a essa euforia, as formosas moças exibiam seus corpos esbeltos e sedutores. Mas na mesma rua onde as pessoas tanto se alegravam, também ocorriam frequentes brigas, mortes, e outros acontecimentos tristes e inexplicáveis, entre eles, a história da moça mais encatadora do carbaré.
Ela tinha um corpo delgado, olhos castanhos e profundos, lábios avermelhados e carnudos, além de ser simpática, atenciosa, delicada, elegante e sedutora. Cada passo, gesto e palavra que a moça pronunciava, cativavam os senhores que estavam presentes no local e pagavam tudo o que tinham no bolso por uma noite de prazer. Porém, devido às muitas gravidezes involuntárias, a moça se habituou a abortar os bebês, pois queria continuar trabalhando e ganhando muito dinheiro.
Havia um senhor muito rico nas redondezas de Alto Paraguai que se destacava por sua presença imponente e rústica. Ele frequentava aquela casa e pagava um valor muito alto, exigindo exclusividade dos trabalhos da moça.
Uma certa vez, a garota engravidou novamente e procurou a dona do cabaré onde trabalhava para que ela a ajudasse abortar a criança, mas a mulher disse que não poderia provocar o aborto do sétimo filho. Porém, a cobiça pelo dinheiro falou mais alto, fazendo-a procurar outra pessoa para pedir uma garrafada abortiva e ela, mais uma vez, abortou o bebê.
Em uma noite de sexta-feira, o ostensivo homem rico chegou e como de costume, procurou por ela. Quando eles foram para o quarto, não demorou muito e começou uma gritaria, a porta se abriu e o homem saiu desesperado, arranhado e sangrando. O Cabaré ficou alvoraçado com os gritos. Algumas mulheres e homens se aproximaram do quarto e viram uma porca enorme deitada em uma poça de sangue com sete porquinhos que faziam muito barulho. Eles saíram grunhindo pela cidade e todos viram, pois era noite de lua cheia. Quando estava prestes a amanhecer, a mulher retornou para o quarto já em forma humana, ela estava descabelada e com o semblante abatido. A dona do estabelecimento a esperava e assim que a moça foi adentrar pela porta, lançou-lhe uma maldição:
̶̶ A partir de hoje, em todas as sextas-feiras de lua cheia você se transformará em porca. Você não poderia abortar o sétimo filho.
A jovem, assustada e com medo, arrumou suas coisas e fugiu durante a madrugada rumo à serra.
A partir desse dia, os moradores que passavam pela serra durante as noites de lua cheia ouviam grunhidos de porquinhos gritando pela mamãe porca. O animal descia com seus filhotes para a cidade e andava nas ruas principais.
Com o passar do tempo, o diamante exauriu, a cidade empobreceu, muitas pessoas mudaram-se, as casas de mulheres fecharam, o movimento acabou. Ainda restam alguns bares que vendem doses de cachaça das poucas garrafas expostas nas prateleiras de madeira. Várias casas caíram com a força da natureza, outras permanecem ali com suas paredes de adobo e telhas de barro, insistindo em guardar a história. Algumas senhoras idosas daquelas famílias que foram personagens do período aurífero passam as tardes sentadas nos calçadões, conversando com os vizinhos. A Rua do Cabaré dorme silenciosa e de vez em quando, no meio das noites de lua cheia, é despertada com grunhidos de porcos.






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