O Couro Velho
- sunairprojeto
- 2 de nov. de 2018
- 3 min de leitura
Atualizado: 14 de nov. de 2018
Essa história aconteceu em Alto Paraguai, próximo ao Córrego Fundo, com um senhor que gostava de trabalhar somente à noite. Naquela época, a cidade estava começando a surgir e ainda era um pequeno vilarejo chamado Gatinho.
Estava também surgindo o garimpo de pedras preciosas e os primeiros comércios que funcionavam em um sistema de troca. Quem tinha diamante trocava por alguma mercadoria como arroz, feijão, milho entre outros produtos.
As famílias moravam umas perto das outras, mas cada uma delas deixava uma extensão de terra para o plantio de diversos alimentos como grãos e hortaliças, também sobreviviam da caça e pesca. Com o tempo, descobriram um riacho que passava por lá, nele começaram a encontrar jazidas de ouro, a este riacho deram o nome de Córrego Fundo. Eles gostavam muito da vida que estavam vivendo, porque começaram a ter fartura.
As pessoas não tinham cavalos, somente de dois a três bois bem grandes. Quando colhiam os alimentos, enchiam as broacas e colocavam nos bois de um lado e do outro para levar à cidade e realizar as trocas nos pequenos mercados da cidade e depois voltavam para casa. No dia de viajar, saíam de madrugada e chegavam na vila do Gatinho bem de tarde, e dormiam por lá. No outro dia faziam tudo o que tinham que fazer e ao meio dia retornavam para suas casas, chegando no comecinho da noite.
Todos trabalhavam de dia, mas um deles, que era muito destemido e não tinha medo de nada, gostava de trabalhar somente à noite, ele dizia que o serviço rendia mais. Por isso, viajava quando começava a anoitecer, passava a noite toda andando e chegava à cidade amanhecendo. Durante o dia, resolvia todas as coisas e quando era seis horas da tarde adentrava a mata perigosa, densa e escura, chegando em sua casa ao amanhecer. Um dia o amigo dele disse:
─Cuidado, é perigoso só você e esses bois na estrada, não tem nem com quem conversar.
─Mas o bom é isso, vou em silêncio e faço minhas coisas todas rapidamente.
Bastantes dias se passaram e ele disse para sua mulher:
─Estamos tendo muitas frutas e verduras, vou ter que ir à cidade, depois de amanhã, trocar por outras mercadorias.
Um dia antes, o compadre dele chegou e disse:
─O senhor vai viajar amanhã?
─Vou- respondeu.
─Caso o senhor veja um boi branco, meio cinza, esse boi é meu, ele escapou, amarre-o e traga para mim já que o senhor vem à noite e terá mais facilidade de vê-lo.
─Tudo bem, se eu vê-lo eu trago.
No outro dia, fez todas as trocas e seis horas da noite saiu da cidade de volta para casa, foi embora cantando muito. Por volta de meia-noite, quando já estava no meio do caminho, avistou um pasto aberto, os capins verdes e baixos e árvores muito altas. O boi do compadre dele estava lá e o homem disse para si mesmo:
─Vou levar o boi do compadre, ele vai ficar muito satisfeito.
Amarrou o seu boi para que não fugisse e entrou no pasto para pegar o do compadre. Quanto mais andava, mais distante ficava. Foi indo e indo, começou a sentir um fedor de carniça e parou. Quando olhou, não era mais o boi, era uns couros rolando. Ele gritou de susto, saiu correndo e a bola de couro atrás.
Chegando perto do boi que estava amarrado, apenas puxou o laço e ele disparou. O moço ainda conseguiu segurar no rabo dele que saiu dando saltos de medo com aquela coisa horrível, com um barulho de arrepiar e um fedor de couro podre, corria atrás. Esse boi correu tanto que o homem estava ficando sem forças para continuar segurando. Até que chegaram no Córrego Fundo que fica perto de sua casa. O boi se aproximou da margem, deu uns passos para trás e saltou do outro lado com o homem. O animal estava fraco porque já tinha corrido muito, a bola de couro parou na margem do córrego e disse:
─Sua sorte é esse córrego, a sua sorte é essa água.
O homem não viu mais nada e desmaiou. Quando acordou, os compadres dele já estavam todos no local e o boi pastando. De tanto susto, ele não conseguia falar, então seus amigos o levaram para sua casa. Aquele senhor ficou vários dias com medo, nem a porta podia abrir que ele já se assustava. Com muito esforço, a fala voltou e ele relatou tudo o que tinha acontecido.
A partir desse acontecimento, o homem passou a viajar para trocar suas mercadorias somente de dia.
Quem anda tarde da noite, pelas estradas de Alto Paraguai, diz que a bola de couro velho continua aparecendo e correndo atrás das pessoas que imediatamente procuram um rio e mergulham nele. Aqueles que não têm a sorte de achar a água, depois aparecem mortos pelas estradas.






Comentários